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Romance no Milênio de Prata

Por Shirlei Massapust
Na primeira fase de Bishōjo Senshi Sērā Mūn os shitenōu tinham a missão de defender o príncipe da Terra, Endymion, e seu respectivo reino, enquanto quatro guerreiras planetárias deveriam igualmente defender o Milênio de Prata e sua princesa, Selenity. Ou seja, sugestivamente temos um casal real cujo amor proibido compõe o cerne de toda a história e um número eqüitativo de defensores de sexos opostos, aptos a incrementar o plano de fundo da crônica romântica principal com outros quatro pares extra. Entretanto, no romance gráfico de Naoko Takeuchi há uma única exceção, um tanto quanto apócrifa, onde as moças deixam transparecer um relacionamento tão intenso com os shitenōu quanto àquele do casal real. Trata-se de um desenho colorido que foi publicado pela primeira vez na revista Nakayoshi, em março de 1993. Em 1994 a autora reeditou esta imagem em uma coletânea de arte, onde explicou:
Esta é a página de título para a conclusão da primeira série de Sailor Moon. Isto teve um grande impacto na primeira série. Provavelmente porque os quatro casais no lado direito eram muito inesperados. Eu estava pensando em histórias do amor das vidas passadas destes casais. Eu gostaria de poder desenvolver isso algum dia.[1]
Neste trabalho independente, Naoko Takeuchi dispôs o casal real em segundo plano à esquerda e, ao lado, encontramos cada ‘general’ abraçando sua respectiva senshi. Sailor Moon está deitada sobre um adorno em meia lua com um vestido longo completamente transparente (e sem rouba de baixo). Tuxedo Kamen lhe beija a nuca. As demais trajam seus costumes habituais e seus correspondentes usam o uniforme atual do Dark Kingdom. Sailor Júpiter pisca o olho para os leitores. Ela está embaraçada, tentando refrear a fogosa investida de um Nephrite que lhe beija o cabelo ao mesmo tempo em que passa uma das mãos sobre seus lábios e a outra quase sobre seus seios. Zoisite é mais tímido e se contenta em tocar gentilmente as duas mãos de uma Sailor Mercury sorridente cuja saia curta balança no vento. Kunzite encara o leitor com expressão séria enquanto prende as duas mãos sob a cintura de Sailor Vênus e Jadeite finalmente reencontrou sua Sailor Mars. Há muito que ele a ama, mas havia um império do mal atrapalhando sua relação
Cronologicamente, no que diz respeito à época das publicações, Jadeite foi o primeiro a reencontrar seu amor do passado. O problema é que neste dia ambos estavam desmemoriados e – cúmulo do azar – ele já era um redivivo. No Ato 3 ele seqüestra Rei, contempla o corpo inconsciente e pensa: “Essa garota... Eu a quis desde o primeiro dia que a vi! Tão linda!” Mas a vilania falou mais alto que a voz do coração e ele não foi gentil com sua parceira. Após ter sua energia sugada, quase ser ofertada como sacrifício à deusa do submundo e servir de escudo humano contra os golpes das suas amigas, Sailor Mars combina o golpe “fogo de Marte” com a “Tiara Lunar” de Sailor Moon e reduz seu admirador endemoninhado a um cadáver ressequido. Dois atos depois ela estaria proclamando indignada sua falta de confiança no sexo oposto ao afirmar que “é culpa do homem deixar ser encantado por um fantasma”. Contudo, bem mais tarde – no volume 11, Casablanca Memory – ela ainda é flagrada pensando em Jadeite.
Outras referências são mais nebulosas. Não há nenhum problema num ente imaterial ser ao mesmo tempo deus e yōma ou espírito, termo que se aproxima do sânscrito ātmā. (Tanto que Indra, o superior direto dos shitenōu históricos, também é chamado Yama). Nephrite desaprova as técnicas de Jadeite, cujos “soldados são de terra”, preferindo materializar formas femininas a partir de sua própria essência. Elas possuem características físicas de sua face, como boca e cabelos, e não são dotadas de consciência própria. Como mulher, Nephrite consegue acesso aos aposentos da princesa do reino D em um baile de máscaras, no Ato 4, e rouba noivos no Ato 5 até que o sentimento da revolta por ter sido ludibriada faz com que Kino Makoto revele sua identidade como Sailor Júpiter e o mate. Ela é a garota mais forte do colégio, capaz de ganhar dos meninos em brigas de rua.
Não ficou claro o motivo pelo qual Makoto foi visada por um adversário que até então estava engajado em absorver apenas energia masculina de noivos raptados. O roteiro diz-nos apenas que Nephrite usa um lendário manequim vestido de noiva para hipnotizar o jovem Motoki e envia seu novo escravo para ludibriá-la, dizendo que a ama. Caso não fossem salvos a tempo, seus corpos se converteriam em manequins e as duas vítimas se tornariam sacrifícios para Queen Metallia.[2] (Talvez Tabito Kusamkura e os artistas do círculo Zi-RUSH tenham concebido a idéia de representar Nephrite e Jadeite como um casal em suas paródias eróticas com base numa interpretação distorcida do conteúdo do Ato 5, posto que Usagi usa a caneta de transformação para assumir uma forma virtualmente idêntica à de Jadeite e fala: “Bem, bela noiva. O seu noivo está aqui. Que tal irmos para nossa cerimônia no inferno?” A noiva é insofismavelmente o próprio Nephrite).
Me parece que Zoisite segue seu exemplo. Tenho visto muita gente discutindo se a Professora Izono é Zoisite ou uma yōma sob seu comando. Creio que era o próprio Zoisite pelos seguintes motivos: 1) Eles se parecem fisicamente, 2) Zoisite e Izono não aparecem juntos nem fazem menção expressa de relações hierárquicas, 3) Izono não morre. Ela simplesmente não é mais mencionada quando Zoisite reaparece para lutar e morrer.
No oitavo volume de Code Name Wa Sailor V, originalmente publicado na revista Run-Run, em novembro de 1993, a Sailor Vênus, Aino Minako, se apaixona pelo líder de uma gangue universitária chamado Saitou e o acha parecido com “alguém” ou “algum ídolo” do qual ela não consegue se lembrar. Apesar de Damburite alegar que o plano de espancar Saitou agradaria a certo Kunzite-sama, o leitor assíduo não hesitaria em identificar a semelhança de um com o outro. A possibilidade da correspondência dos personagens é reforçada pela fala de Adonis, no ato XV, que revela que Vênus se apaixona por certa pessoa “toda vez que retorna”, ao mesmo tempo em que vemos um quadro referencial onde Kunzite e Vênus contemplando um ao outro. Isso marca o fim da união estável entre Kunzite e Zoisite, celebrada clandestinamente pela produção da Toei Animation.
[1] TAKEUCHI, Naoko. Pretty Soldier Sailor Moon: Original Pictures Collection, Vol. 1.
[2] Neste ato Usagi Tsukino assume uma forma praticamente idêntica a de Jadeite usando a caneta de transformação e fala ao fantasma de Nephrite: “Bem, bela noiva. O seu noivo está aqui. Que tal irmos para nossa cerimônia no inferno?” (Act 5 SAILORJUPTER). Isso pode deixar subentendido que ambos teriam qualquer tipo de relacionamento especial mesmo fora das paródias eróticas de Tabito Kusamkura, mas estou tentada a atribuir tal semelhança a inaptidão de Naoko para desenhar uma variedade razoável de rostos humanos (seu Jadeite também se parece um pouco com Motoki e é absolutamente idêntico ao Narkissos, da Dark Agency). No anime estes dois personagens não chegam a se encontrar. Na revista Nephrite critica a atuação de Jadeite da mesma forma que Kunzite viria a fazer com Zoisite. Há uma cena emotiva quando Nephrite vela o corpo de Jadeite (Act 4 Masquerade, p 132), mas excetuando a passagem dos ‘noivos’ não parece haver nenhum indício relevante de um relacionamento homossexual.